A ladeira do Direito

Diligente, a mulher da limpeza varre o recinto. A biblioteca da UDF, após a instalação dos novos computadores, vive apinhada de estudantes. Com eles, papéis de bala, bolinhas de chiclete, tampas de caneta, entre outras miudezas sujam o ambiente. Me chamam a atenção os brincos daquela senhora. Como os sinos de uma catedral, badalam de um lado para o outro. “Será que esses penduricalhos não a incomodam?” — penso da minha mesa. Por alguns instantes, perco-me nessa divagação. O conjunto daquela mulher é para mim um enigma, e por algum motivo encaro-a em busca de respostas. O seu rosto, lânguido como as folhas de um salgueiro, é arredio; e ela evita olhar diretamente nos olhos de quem quer que seja. Parece resignada ao alheamento que dela fazem os universitários e professores.

Desconfio do livro à minha frente: talvez seja ele a suscitar ponderações e perguntas. A Ladeira da Memória, de José Geraldo Vieira, é uma escadaria voltada para dentro. A lombada do livro, colada com fita crepe, é o primeiro dos seus degraus. Os meus olhos rápidos, vez ou outra, saltam da obra para o mundo concreto de prateleiras, paredes, réguas e obrigações. “A mulher da limpeza daria um personagem de peso nas mãos de Vieira” — concluo, retornando à obra. “Nas minhas, quem sabe, daria uma crônica”. Deus me livre das primeiras impressões, mas não posso negar: o aspecto de conformação daquela senhora me levou a supor um lado seu misantropo, decerto subversivo. Pois cada um de nós traz em si contradições irreveladas, que buscam extinguir-se no mundo real.

O alarme do smartphonetoca, interrompendo os meus pensamentos. Às 20h35, tenho uma prova de Penal. Fecho as páginas da obra, forçado a descer a ladeira do Direito. Eu mesmo não sei se tenho mais jeito para a coisa. Quando iniciei o curso, ergui dentro de mim os bustos de Ruy Barbosa, Sobral Pinto, Clóvis Beviláqua, entre outros. Pilares sobre os quais se sustentava a minha concepção de Justiça, vejo-os hoje furtivos como a neblina que se dissipa à força de ventania. Para se desiludir com o Direito, o primeiro passo é iniciar o curso formal. Reduzido aos esquemas da grade curricular, o seu brilho se torna baço, o seu sabor insípido, a paixão que evocava vira lugar comum — passamos a vê-lo não como uma expressão da justiça divina, mas como um instrumento para ganhar dinheiro. 

Desci um despenhadeiro, e agora observo, lá de baixo, os grandes juristas. Eles me olham com pena. Junto a mim, existem outros colegas. Um deles, vaidoso, ergue o seu diploma. E Miguel Reale, lá do alto, ri com desprezo e compaixão. “Isso já não vale nada”, penso comigo mesmo. Logo, sinto saudade de um tempo que não vivi, dos jurisconsultos romanos. E suponho que, naquela época, a concepção do Direito fosse tão alta quanto o próprio céu. Penso no Digesto, na “arte do bom e do justo”, e me iludo com a suposição de um período romano puro, hígido. Saio à cata de outra obra, ansiando por Justiniano, Ulpiano, entre outros. A lembrança da prova, todavia, me detém. Imagino o professor na sala, os alunos debruçados sobre as avaliações. Por um instante, penso em desistir. De repente, torno a vista para o livro sobre a mesa.

Seria possível subir a ladeira do Direito?

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