Somos todos Curionópolis!

O garimpeiro mergulha uma peneira nas corredeiras do rio e a agita em movimentos circulares e cadenciados. Nos olhos febris, anseia a correnteza que levará o cascalho e a terra bruta, revelando os fragmentos dourados, quiçá uma pepita — ele busca ouro. Serra Pelada foi um espetáculo a céu aberto, um palco onde o homem interpretou a ambição que possuia. A alma humana, exposta em sua crueza, rasgada pelo frêmito de emoções carnais irrefreáveis — paixões, desejos, luxúria, etc. O resultado: o arrependimento.

Em 1982, Bento Onorato de Sampaio deixou o seu Maranhão, a mulher e seis filhos, para aventurar-se à cata da pedra preciosa. Trinta anos depois, idoso e solitário, abriga sonhos e pesares no barraco de um cômodo onde vive na companhia dos pernilongos. Nas pupilas, reluz a mesma expectativa irreprimida dos primeiros anos, qual moléstia que irrompe o desvairo em todos os cantos de Curionópolis: “Ouro! Ouro! Ouro!”. Sobre a mesa, no entanto, a triste realidade: minguam-lhe, num prato, carne e feijão. “O que dirão os filhos desse homem, amputados do pai por tanto tempo?” — penso, ao ler a matéria. “E como retornar à antiga cidade, rever os amigos e familiares, estampando na face o desalento?”. Forçoso é ficar, cultivando recordações e sonhos.

Impactado pelas imagens dos homens enlameados, subindo e descendo escadas, adentrado em barrancos profundos, eu meditei sobre a condição humana. Concluí: Curionópolis abrange mais do que os seus dois mil quilômetros quadrados: habitam-na Brasília, São Paulo, Minas Gerais e os demais estados brasileiros. Podemos dizer, sem sombra de dúvidas: “Somos todos Curionópolis!”.

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