Entre jardins e a caatinga

Amigos me aconselham a andar mais com Graciliano Ramos, o grande escritor alagoano. Dizem que meu texto é rebuscado, cheio de bijuterias, e que o Velho Graça colocará limites nessas afetações e solenidades. Melindro-me de imediato, porque julgava ser verve literária aquilo que os ilustres colegas consideram pretensão pueril. As minhas ilusões de Dom Quixote escorrem pelo ralo, deixando-me nu. E sobre a superfície, surge o menino inseguro que eu tentava esconder por detrás de palavras pomposas. “É esse menino, meu filho, que buscavam Drummond e Bandeira. Ele é a sua grandeza literária, porque nele está a sua verdade” — me diz uma voz. E eu choro compulsivamente, porque seguro essa criança pelas mãos e não me sinto mais só. Já não acredito numa literatura que não seja a cura das feridas, que não seja libertação.

A página branca é o divã e também a igreja, onde confesso os meus pecados:

— Pecaste, meu filho?

— Pequei, senhor padre.

— E o que fizeste?

— Exagerei nos adjetivos e advérbios; fui prolixo, padre.

— Minha Nossa Senhora!

— E é grave, seu padre?

— Gravíssimo!

— E agora?

— Ore, meu filho! E leia o Velho Graça.

Ora! Graciliano novamente?! A contragosto, retiro da prateleira uma edição esquecida de São Bernardo. Revejo a métrica de sua escrita, a aridez do seu relevo — e aquela secura de estilo me dá insônia. Nenhum pé de flor, somente a caatinga. As flores do meu jardim, podadas pelo rigor graciliânico — só de pensar me dá vertigem.

O velho escritor, no entanto, é rigoroso. Inspetor do texto, segura nas mãos uma palmatória. Intimidador, me olha nos olhos ameaçando o castigo. “Velho mal-amado e rabugento” — digo, inconformado. Onde quer que se olhe, lá estará o cânone graciliânico — podando descontroladamente a palavra. “Queria ver o Velho Graça diante de Proust. Seria a minha desforra!” — confabulo sozinho.

São Bernardo, meu Deus! São Bernardo! Tenho que voltar para o velho livro. Vou lê-lo, relê-lo — reescrevê-lo dez vezes.” Quem sabe assim os meus amigos me deixam em paz. E eu possa dormir novamente sem ver o vulto esguio de Graciliano Ramos.

No fundo, o admiro.

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